Entrevista exclusiva com o governador Jaques Wagner

O governador Jaques Wagner foi eleito pela primeira vez ao mais alto cargo do Poder Executivo baiano em 2006, após uma surpreendente vitória no primeiro turno, com 52,89% dos votos. A façanha levou o Partido dos Trabalhadores ao Governo do Estado pela primeira vez, depois de uma hegemonia de 16 anos da direita na Bahia. Na eleição de 2010, em um cenário completamente diferente, confirmou o seu favoritismo e foi reeleito, também no primeiro turno, com 63,8% dos votos. Nesta entrevista exclusiva à Revista do Fornecedor, o governador fala abertamente sobre as políticas voltadas para o segmento industrial nos próximos quatro anos e faz um balanço de sua primeira gestão.
Nascido na cidade do Rio de Janeiro, em 1951, Wagner iniciou jovem a carreira política, no difícil ano de 1968, ao ingressar no movimento estudantil e presidir o Diretório Acadêmico da Pontifícia Universidade Católica (PUC), ainda em sua cidade natal. Sua história com a Bahia começou em 1974, quando chegou a Salvador após abandonar o curso de engenharia no ano anterior, devido à perseguição do regime militar.
Teve papel ativo na luta pelos direitos dos trabalhadores no Polo Petroquímico de Camaçari (BA), onde fez parte do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Petroquímica (Sindiquímica). Nessa época, conheceu o ex-presidente Lula e foi um dos fundadores do PT e da Central Única dos Trabalhadores (CUT) na Bahia, sendo o primeiro presidente do partido no Estado.
Além de governador, Wagner já foi responsável pela Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2004) e ministro das Relações Institucionais (2005).

Revista do Fornecedor – Quais foram as principais ações do Governo voltadas para a indústria na gestão 2006-2010?
Jaques Wagner – Atuamos em várias frentes, que vão desde a oferta de incentivos fiscais às empresas interessadas em se instalar na Bahia até a atenção especial ao ensino profissionalizante, com o objetivo de qualificar a mão de obra. Fizemos obras de revitalização dos distritos industriais de Ilhéus, Jequié, Juazeiro, Vitória da Conquista, Itapetinga, Teixeira de Freitas, Barreiras, Itororó, Eunápolis, Santo Antônio de Jesus e Luís Eduardo Magalhães. Estamos investindo em infraestrutura rodoviária, portuária, ferroviária e em melhorias nos aeroportos municipais. Em relação ao Polo Industrial de Camaçari, renegociamos os créditos do ICMS, resolvendo uma pendência de anos e permitindo que uma empresa do porte da Braskem anunciasse mais investimentos, gerando negócios e empregos. Avalio que também foi de grande importância a reinstalação do Conselho de Desenvolvimento Industrial, o CDI, democratizando de fato a nossa política industrial, com a participação de todos os agentes econômicos.

RF – Quais os grandes investimentos atraídos para o Estado da Bahia durante esse tempo?
JW – Podemos citar a duplicação da Ford, que vai investir R$ 2,4 bilhões na fábrica de Camaçari; o início da produção de níquel da australiana Mirabela, em Itagibá; a disposição da Braskem em investir R$ 1,5 bi em projetos no Polo Industrial de Camaçari; e a assinatura de protocolos com a francesa Alstom e a espanhola Gamesa visando à construção de fábricas de aerogeradores de energia eólica. Também se definiram pela Bahia a francesa Saint-Gobain, o grupo Votorantim, a Latapack-Ball, com uma nova fábrica de latas de alumínio para atender à crescente demanda do setor de bebidas em investimentos já anunciados da Schincariol, AmBev, Coca-Cola e AjeGroup.

RF – Como a inauguração do Gasene contribuirá para o desenvolvimento industrial da Bahia nos próximos anos?
JW – O Gasene cumpre a função estratégica de integrar as malhas de transporte de gás natural das regiões Sudeste e Nordeste. Além de duplicar a capacidade de fornecimento de gás natural para o Nordeste, o gasoduto dá maior confiabilidade e flexibilidade ao abastecimento da Bahia. Passamos a contar com a produção das bacias de Campos (RJ), Santos (SP) e do Espírito Santo, com uma capacidade de transporte de até 20 milhões de metros cúbicos/dia.

RF – A crise econômica mundial de 2008 interferiu de que forma no crescimento do Estado?
JW – Atravessar a crise econômica mundial foi muito difícil. Muitos investimentos anunciados foram adiados ou ficaram paralisados. Felizmente, em 2009 a economia brasileira – graças à visão e determinação do ex-presidente Lula – impulsionou a expansão do mercado interno e voltou a crescer. Os investimentos foram retomados e, com certeza, teremos uma boa colheita de projetos em 2011 e 2012.

RF – Quais obras de infraestrutura beneficiarão o agronegócio no oeste baiano, nos quatro anos que estão por vir?
JW – Não apenas o oeste baiano, mas toda a Bahia será beneficiada com a Ferrovia Oeste-Leste, cuja ordem de serviço foi assinada pelo ex-presidente Lula. Ela representa um investimento de R$ 7,25 bilhões e vai fazer a interligação entre o futuro intermodal Porto Sul e a Ferrovia Norte-Sul, em Figueirópolis, Tocantins – numa extensão total de 1.527 quilômetros. Então, toda a nossa produção agrícola e de grãos do oeste baiano terá um meio de escoamento mais barato. Temos ainda a ampliação e requalificação dos aeroportos de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, assim como de rodovias da região.

RF – É possível considerar que a indústria foi um grande gerador de empregos durante o seu primeiro governo?
JW – Sim, ela teve um papel importante. A indústria da construção civil, de calçados, de bebidas, a petroquímica, a automobilística e a de pneus contribuíram de forma crescente para que a Bahia fosse recordista no Nordeste em geração de empregos com carteira assinada, com a criação, em 2010, de mais de 100 mil postos de trabalho.

RF – Diversas obras estão em andamento no sul da Bahia, como as do Complexo Multimodal de Cargas e a Zona de Processamento de Exportações. Há uma tendência de a região se tornar um novo polo industrial do Estado?
JW – Essas obras possibilitarão a criação de uma nova matriz econômica na região, que sofreu muito com a crise na lavoura cacaueira. São obras estruturantes, de longo prazo, que criarão as condições necessárias para que o sul e o extremo-sul da Bahia experimentem um novo ciclo de desenvolvimento e prosperidade.

RF – E o desenvolvimento da indústria naval no Recôncavo, quais os planos futuros?
JW – Continuamos na briga para ter um estaleiro no Paraguaçu; apostamos em um dos maiores investimentos estruturantes para a economia baiana dos últimos 30 anos. O estaleiro será totalmente voltado para a produção de plataformas de petróleo, representando investimentos de R$ 2 bilhões e perspectivas de geração de 8 mil empregos diretos.

RF – Quais as expectativas para a indústria baiana, nos próximos quatro anos?
JW – A Bahia vai colher nos próximos quatro anos o que plantou. Nessa área, os investimentos são de longa maturação. A decisão de construir uma nova fábrica ou de modernizar uma linha de produção não é feita da noite para o dia. À medida que nossa economia continue crescendo, os investimentos irão aumentar. A Bahia, com certeza, já está na geopolítica internacional dos grandes investidores em automóveis, mineração, pneus, eletrônicos, petroquímicos, energia, têxteis, bebidas e calçados.

RF – Como o Governo da Bahia pretende atrair novos investimentos?
JW – A Bahia, como todos os estados brasileiros, tem uma política fiscal para a atração de investimentos. Somos flexíveis, abertos ao diálogo, mas conscientes de que faremos uma real parceria, que seja boa para o empresariado e melhor ainda para a população baiana. As obras de infraestrutura já citadas são outro atrativo importante.

RF – Como o senhor avalia a parceria entre Governo da Bahia e Governo Federal, do ponto de vista dos benefícios à indústria na Bahia?
JW – Eu e a presidenta Dilma fazemos parte de um mesmo projeto, defendemos os mesmos ideais. Não esperaremos dela, porque não seria justo esperar, um tratamento diferenciado em relação aos outros estados, uma vez que o compromisso da presidenta é com a integralidade da Nação. Porém, como há regiões do País com necessidades mais urgentes de desenvolvimento que outras, os esforços do Governo Federal, dando continuidade ao que foi feito durante os dois mandatos do ex-presidente Lula, certamente serão para descentralizar o crescimento, promovendo-o de forma equilibrada em todas as regiões.

RF – E como será a relação entre Governo da Bahia e Governo Federal, a partir de agora?
JW – Exatamente como se deu durante o mandato do ex-presidente Lula, quando a busca pela harmonia e entendimento foi constante. Fazemos parte de um mesmo projeto, então, os pré-ajustes já foram feitos. Agora é juntar os esforços e seguir adiante.

RF – Por fim, como o senhor espera que seja a Bahia entregue ao próximo governador, no dia 1º de janeiro de 2015?
JW – Em 2007, encontramos um estado com gravíssimos problemas sociais. Uma parte significativa da nossa população não contava com direitos básicos como água tratada, energia elétrica, saúde e escola. Havia dois milhões de analfabetos na Bahia. Nos primeiros quatro anos, trabalhamos para resgatar parte dessa dívida social, mas não se recuperam em tão pouco tempo os estragos de décadas de negligência. Nos próximos quatro anos continuaremos a trabalhar para que um número cada vez maior de famílias passe a ter uma vida mais digna. Em 2015, serei um homem feliz se conseguir reduzir a uma faixa mínima a distância entre a Bahia que sonhamos e a que temos.

            
            

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