Lelé, mestre na arte de construir sem agressão à natureza

Da prancheta para o piano. João Filgueiras Lima, o Lelé, é considerado o “mago” da arquitetura contemporânea, mas o que ele queria ser, mesmo, era músico. Se a música perdeu o seu talento, a arquitetura ganhou a sua genialidade. Na imensa lista dos projetos por ele assinados ao longo dos 55 anos de carreira, espalhados pelo Brasil a fora, pode ser sentida a presença de um conceito de construção que rompeu com os paradigmas das obras públicas, a marca do profissional comprometido com o desenvolvimento de uma arquitetura mais humana, menos agressiva, que abre espaço para o melhor aproveitamento daquilo que a natureza oferece de graça. Desse modo, lâmpadas e aparelhos de ar-condicionado dão lugar a luz e ventilação naturais em construções mais racionalizadas e economicamente viáveis. É assim na rede de hospitais Sarah, nos Tribunais de Contas da União da Bahia, Sergipe, Minas Gerais, Alagoas, Piauí e Mato Grosso, no Tribunal Regional Eleitoral da Bahia, na Prefeitura de Salvador e em tantas outras obras. O desenho exclusivo de Lelé está até mesmo em equipamentos especiais de uso hospitalar, como macas e camas da rede Sarah, produzidos para integrar espaço construído, equipamentos e usuários. Nascido no Rio de Janeiro sob o signo de capricórnio, aos 78 anos, “desesperançoso” com a arquitetura praticada hoje, na simplicidade do seu escritório no Instituto Habitat, em Salvador, o “mago” fala à Revista do Fornecedor sobre seus medos e sua relação com o mestre Oscar Niemeyer, com quem participou da construção de Brasília.

O senhor é um dos precursores da preocupação com a arquitetura com sustentabilidade, com respeito ao meio ambiente. Que visão o senhor tem do Brasil, neste momento em que o País se prepara para a Copa do Mundo de 2014?
Acho que o problema é realmente do mundo, não é só nosso, não é só do Brasil, é internacional. É essa devastação da natureza, que está ocorrendo cada vez mais, e o que se faz, na prática, é muito pouco. O discurso é muito rico, fala-se em ecologia, em sustentabilidade, mas na prática a gente vê que o que ocorre nos nossos centros urbanos é muito diferente. Na prática é justamente o contrário. O pior é que às vezes a gente vê na mídia um assunto sem grande relevância ganhar dimensões descomunais, enquanto não se divulga absolutamente nada das grandes discussões. Por exemplo, a gente defende uma árvore que está no meio do asfalto, que, aliás, devia estar pedindo para morrer há muito tempo, pois está em condições completamente inóspitas, fora do seu habitat, mas não defende com a mesma veemência as árvores que estão sendo destruídas na Amazônia diariamente. Quem for ao Pará vai ficar estarrecido diante da quantidade de contêineres com madeira que sai de lá, diariamente, do porto de Belém. Então, acho que a gente vive num mundo absolutamente irreal, num mundo virtual, num mundo de faz de conta em que tudo que ocorre na prática é completamente diferente do discurso ou do que a mídia divulga.

“ACHO QUE SE DISSER QUE COM OS PROJETOS QUE DESENVOLVO
USANDO VENTILAÇÃO E ILUMINAÇÃO NATURAIS CONTRIBUO PARA A SUSTENTABILIDADE DO PLANETA,  ESTAREI FAZENDO UM DISCURSO FALSO.
ISSO MUDA MUITO POUCO”

O senhor desenvolveu vários projetos que buscam sintonia com o meio ambiente, sem prejuízo a sua funcionalidade…
Pois é, em todos os projetos que desenvolvo, procuro economizar energia, encontrando alternativas de conforto que sejam mais efetivas. Por exemplo, no campo do hospital, para o paciente ser cuidado ele precisa estar preparado psicologicamente. Não é apenas com a ressonância magnética que ele será curado. É preciso que o ambiente hospitalar seja agradável, que os tratamentos sejam efetuados de uma forma amena para que o paciente tenha uma recuperação psicológica boa. O ambiente hermético nem sempre lhe faz bem. Ele não se dá conta de que está num ambiente inóspito, fechado, respirando um ar viciado, que o ar-condicionado que circula ali está carregado de bactérias, de fungos, uma carga de ácaros que não faz bem, é terrível para o sistema respiratório das pessoas. O Hospital Sarah Salvador funciona muito bem sem ar-condicionado.
Quando o senhor desenvolveu os projetos da rede Sarah de Hospitais, teve como foco a preocupação de proporcionar aos pacientes esse ambiente harmônico?
Lógico que, para mim, isso é fundamental. Veja, acho que se disser que com os projetos que desenvolvo usando ventilação e iluminação naturais contribuo para a sustentabilidade do planeta, estarei fazendo um discurso falso. Isso muda muito pouco. A gente tem que desistir de muitas coisas. A população do mundo aumentou muito e vai aumentar cada vez mais à medida que a gente descubra mais tecnologias para curar as doenças. É preciso conviver com o planeta na sua escala correta. Não é a economia de energia numa casa que vai resolver o problema do planeta. Muitas coisas estão em jogo. É preciso consumir menos ou, então, cortar a população a um terço.
O senhor acha que essa Copa vai deixar um legado positivo para o País, especialmente para a Bahia, recuperar o nosso atraso em relação aos países mais desenvolvidos?
Os nossos padrões são piores do que os padrões europeus. Na Europa há equipamentos heterogêneos. Evidentemente que para atender às necessidades dos europeus que vêm assistir à Copa temos que nos igualar a eles. Então, é claro que vai melhorar, entre aspas. Vai melhorar, não, vai aumentar o consumo de coisas; vamos ver até que ponto o que os europeus vêm para ver, para consumir durante um mês, é exatamente aquilo que nós precisamos. No duro, no duro, vamos resolver alguns problemas pontuais, como as avenidas de vale, o transporte coletivo, mas as áreas que precisam de saneamento vão continuar as mesmas.

O senhor acha que será uma maquiagem artificial para “gringo ver”?
Eu gostaria que não, mas que vai ser, vai. Não tenho a menor dúvida. Vão ser feitos alguns investimentos, até porque, do contrário, as exigências não seriam atendidas. Vai melhorar o sistema de transporte, se não as avenidas ficarão sem sentido. Mas também acho que todo mundo vai se aproveitar disso para gastar de forma errada. Nesse discurso vale tudo. Vale demolir a Fonte Nova e fazer outra.

 “… A ARQUITETURA DÁ UMA
 CONTRIBUIÇÃO MUITO PEQUENA PARA ESSE ENVOLVIMENTO QUE EXISTE DA POPULAÇÃO DO MUNDO COM A SUSTENTABILIDADE DO PLANETA”

O senhor é considerado o “mago” da arquitetura contemporânea, assina projetos de peso espalhados por todo o País. Brasília e Salvador são exemplos. Como o senhor se sente ao ouvir comentários elogiosos ao seu trabalho? 
Estou tão desesperançoso em relação ao que se faz, ao que se pratica na arquitetura, que esse tipo de elogio – nem gosto desta palavra -, de julgamento favorável, me deixa completamente constrangido, porque eu sei que não estou fazendo nada. Nós todos deveríamos estar fazendo outras coisas mais importantes do que arquitetura, que dá uma contribuição muito pequena para esse envolvimento que existe da população do mundo com a sustentabilidade do planeta.
Mas hoje existe um movimento na Europa que busca exatamente rediscutir a arquitetura, com uma preocupação ecológica, sintonizada com as questões ambientais, abrindo mão, inclusive, de alguns confortos.
É, mas ainda estamos muito atrasados em relação a isso. Esses exemplos são uma gotinha d’água. A gente vê esses exemplos tão precários diante da necessidade premente de se mudar tudo. As transformações têm que ser rápidas, não dá para ser gradual, é preciso que a cabeça das pessoas mude, essa que é a verdade. O individualismo das pessoas é tão exacerbado! Não há nenhuma solidariedade entre elas. A gente vê isso quando sai de casa e enfrenta uma guerra diária no trânsito, é um querendo passar à frente do outro, não há nenhuma delicadeza, nenhuma gentileza.
O senhor começou a sua carreira profissional trabalhando ao lado de Oscar Niemeyer, um dos arquitetos brasileiros de maior projeção nos cenários nacional e internacional. Como foi essa experiência para um profissional que estava começando?
Foi fundamental para mim. Tanto que até hoje eu encaro o Oscar como o meu mestre. Estou com ele sistematicamente, vou visitá-lo sempre que estou no Rio. Para mim ele continua sendo meu mestre, não apenas pelo profissional, mas pelo ser humano que ele é. Se todos fossem iguais ao Oscar – plagiando a letra do Vinicius –, o mundo seria diferente, seria muito melhor. Oscar é uma pessoa excepcional. Até hoje sofro sua influência.

A sua assinatura tem a marca de Niemeyer?
A gente tem que analisar isso de forma diferente. Cada um tem sua forma de expressão. Eu me considero apenas um profissional. Oscar é um gênio, uma pessoa à parte no panorama da arquitetura. Se eu tentasse fazer aquilo que ele faz, faria uma grande bobagem, faria uma caricatura de mau gosto. Então eu tenho que fazer aquilo que eu consigo, dentro das minhas limitações. Cada um faz aquilo que pode. Nessa questão da competição profissional, as pessoas tentam fazer aquilo que elas não sabem, nem são capazes de fazer. Então terminam criando problemas sérios no desempenho profissional.

Dos tantos projetos que o senhor assina, quais os que lhe deram maior satisfação em realizar?
Sempre os últimos, porque na profissão a gente vai sempre se aprimorando. O último hospital da rede Sarah, que é o do Rio de Janeiro, acho que é aquele em que essas questões todas que eu desenvolvi ao longo da minha carreira, são 55 anos de carreira, foram aprimoradas. Sempre o último é aquele em que a gente tem condição de controlar sua execução. Às vezes o arquiteto pensa uma coisa e, na prática, devido a questões administrativas, não consegue viabilizar.
Em Salvador, o senhor foi notícia quando construiu a sede da Prefeitura em 14 dias.
Isso é muito simples de fazer, desde que se planeje.

Em 14 dias deu tempo para planejar?
É possível. Mesmo na rede Sarah fazemos prédio em 45 dias. Eu acho que quanto mais rápida a execução, desde que bem planejada, mais econômica e menos predatória ela será. Planejamento é fundamental na construção civil, porque evita a perda de material e energia. A construção civil é um exemplo de desperdício até hoje. Isso é consequência da falta de planejamento. As obras demoram muito mais porque não são planejadas. Como se pode pensar em sustentabilidade do planeta, quando se desperdiça energia e material na construção?
E a nossa mão de obra, como o senhor avalia? Está capacitada para acompanhar as exigências atuais?
Não, cada vez menos. O que está faltando em nossa profissão é integração, como em todas as outras. Com o desenvolvimento da tecnologia em todos os campos, a gente tem fragmentação do conhecimento.

“HOJE O MUNDO MUDA DE FORMA MUITO RÁPIDA COM
A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA. A ARQUITETURA E O URBANISMO, ESSAS COISAS PLANEJADAS, NÃO ACOMPANHAM,
FICAM  OBSOLETAS, JÁ
NASCEM OBSOLETAS”

Como foi participar do desafio de construir Brasília, uma cidade criada do nada?
Foi algo muito importante. Eu era muito jovem, tinha 24 anos, não tinha muita consciência da importância do que seria para mim, não só no campo profissional, como na experiência de vida. Era um período em que a humanidade estava vivendo os anos dourados, todo mundo acreditava num mundo melhor, as pessoas saindo daquela guerra terrível, havia esperança, era um momento muito bom. Naquele momento, a gente tinha absoluta consciência de que estava contribuindo para melhorar o mundo. Quando se fazia uma coisa, como no caso de Brasília, que foi um acontecimento épico, as pessoas se envolviam muito, tudo era discutido com grande eloquência, a política era uma coisa exacerbada. Aquele era um momento de revolução e Brasília foi construída nesse clima, enriquecia a gente.
O senhor repetiria hoje essa experiência, participaria de um projeto dessa natureza? O senhor acha que as cidades planejadas são a solução?
Não. Hoje o mundo muda de uma forma muito rápida com a evolução tecnológica. A arquitetura e o urbanismo, essas coisas planejadas, não acompanham, ficam obsoletas muito rapidamente, já nascem obsoletas. Então, quando se planeja uma cidade, ela já nasce defasada. Antigamente, quando a gente construía uma catedral, construía por etapa, demorava 200 anos e a população se envolvia. Hoje, quando uma obra fica pronta, a gente já sabe que ela está devendo muito à tecnologia. A construção civil está tão atrasada, é demorada, quando se acaba um prédio ele já não serve para muita coisa.
O que o senhor gosta mais de construir, equipamentos públicos ou residências?
Acho que até uma casa para cachorro, se for bem pensada, pode dar prazer profissional. Mas acho que a questão do público tem mais finalidade. Eu passei praticamente minha vida inteira atuando no público, até porque residência exige uma relação mais íntima com as pessoas. De vez em quando eu faço uma casa para um amigo. Se a gente não conhece bem a pessoa, é mais difícil.

“Hoje, quando uma obra
fica pronta, a gente já sabe que ela está devendo muito à tecnologia”

Quem é Lelé por Lelé?
Eu não sei exatamente. Quando a gente chega à idade que tenho e faz um retrospecto do que foi a vida, o que ela representou, como vai encarar os próximos anos … eu não sei. O Lelé de 70 anos atrás era diferente, o de 60 anos atrás era muito diferente e o de 20 anos também. O que sei é que temos que conviver nesse mundo que nos inspira um isolamento cada vez maior para nos protegermos. A gente sai na rua e tem medo da segurança, fica imaginando que está em constante risco. Eu não me sinto preparado para as modificações tão grandes que ocorreram no meu ciclo de vida. Algumas pessoas se adaptam, eu não.

O senhor é carioca e escolheu a Bahia para viver. Por quê?
Sei lá, essas coisas na minha vida são acidentais, ocorrem por acaso. A primeira vez que vim para cá foi em 1970, quando Mário Kertész era secretário do Planejamento e me convidou para trabalhar na implantação do Centro Administrativo. A segunda foi quando ele ocupava o cargo de prefeito (por duas vezes) e me chamou para trabalhar na Prefeitura. Por fim, eu acabei criando esse centro tecnológico da rede Sarah, o que me obrigou a morar aqui.

O senhor tem algum medo?
O medo de todo dia. O medo de sair de casa, enfrentar essa disputa diá-ria no trânsito, dessa convivência tão esquisita com o ser humano, nada mais é espontâneo.

Uma coisa que o senhor não gosta?
A mentira.

Uma crença?
Depois de falar tão mal do ser humano, fica difícil acreditar em alguma coisa.

Se o senhor não fosse arquiteto, o que gostaria de ser?
Músico.

            
            

Faça seu comentário.

              
            
                 
                                 
 
                                                  
                                   
                                                 
 
                                 
                                   

            
        
* Todos os campos são OBRIGATÓRIOS
Mensagens de caráter pessoal serão liberadas ou não a critério deste portal. Todos os comentários são de domínio público e não são responsabilidade da ANDA. Os comentários são gravados através de número IP.
        

     

edições

ANUNCIE: (71) 3121-7967 / (71) 3288-0227

comercial@revistaprimeirapagina.com.br

Gorila Comunicação Web Rua Brigadeiro Mário Epinghaus, 33, Centro – Lauro de Freitas – BA CEP: 42.700-000
(71) 3288-0227 / (71) 3484-3565 / (71) 3121-7967 | comercial@revistaprimeirapagina.com.br | redacao@revistaprimeirapagina.com.br