Parques eólicos movimentam economia baiana

Ao que tudo indica, a energia eólica é a mais nova aposta da Bahia em termos de geração energética para os próximos anos, o que é uma tendência em toda a Região Nordeste. Atualmente existem 34 projetos desse tipo em fase de implantação no estado, contratados através de leilões de energia realizados em 2009 e 2010. Três parques estão sendo construídos pela Desenvix em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, e são essas obras as que se encontram em estágio mais avançado, contando até com aerogeradores montados em uma das unidades.
A previsão de início das operações nesses parques é para julho de 2011. “Embora tivéssemos um prazo de entrega para meados de 2012, nós terminaremos as obras praticamente um ano antes do prazo estipulado no leilão. Esse tipo de construção costuma ser concluído no prazo médio de um ano e meio a dois anos, mas conseguimos terminar em um tempo bem menor, começando no segundo semestre do ano passado”, conta o presidente da Desenvix, José Antunes Sobrinho.
Além dos parques da Desenvix, há projetos de outras companhias em andamento no estado, como Renova, Consórcio Pedra do Reino, PE Cristal, Iberdrola, Brennand e Chesf, que deverão começar a operar até meados de 2012. “A soma dos investimentos na área ultrapassa a marca de R$ 4 bilhões. Com a inauguração de todos os empreendimentos, acreditamos que a fonte eólica chegará a ter uma participação de 8 a 10% na matriz energética da Bahia”, afirma o secretário da Indústria, Comércio e Mineração, James Correia.
Para o representante de assuntos de energia eólica da SICM, Rafael Valverde, a construção dos parques eólicos resulta em um grande impacto positivo do ponto de vista econômico. “É possível dizer que essas obras representam uma revolução na Bahia. Por enquanto, temos apenas 1.000 MW contratados, mas já existe um potencial para mais 20.000 MW em fase de pesquisa. Cada projeto analisado individualmente pode não parecer tão significativo, mas em conjunto eles conseguem agregar uma grande quantidade de energia ao nosso sistema nacional”, comemora. Para efeito de comparação, a usina de Itaipu (a maior hidrelétrica do mundo), em Foz do Iguaçu, tem potencial de geração de 14.000 MW.
Os três parques construídos em Brotas de Macaúbas contaram com um alto investimento e têm uma expectativa igualmente grande de retorno, tanto do ponto de vista financeiro quanto da geração de energia. “As obras tiveram um custo total de R$ 400 milhões e a perspectiva é de um faturamento de R$ 50 milhões por ano. Juntos, eles irão gerar cerca de 350 mil MWh/ano, o suficiente para abastecer uma cidade com cerca de 70 a 80 mil pessoas”, afirma o presidente da Desenvix.

Polo de energia eólica em construção
O representante de assuntos de energia eólica da SICM adianta planos ambiciosos e já em curso para a Bahia, como um polo industrial de energia eólica na região de Camaçari. Entre as empresas que vão se instalar na região encontram-se a Alstom e a Gamesa, dois fabricantes de aerogeradores cujas obras estão em andamento. “Também há outros produtores de aerogeradores interessados em participar, além de fabricantes de pás, torres e companhias de logística. Estamos negociando com cerca de 10 empresas”, revela. A previsão é de que as obras da espanhola Gamesa terminem em até quatro meses e as da francesa Alstom levem mais ou menos oito meses até a conclusão.
O secretário James Correia também discorre sobre a construção do polo e as razões que o tornaram viável. “As prioridades de financiamento e os incentivos fiscais para empresas que investissem na Bahia provocaram uma corrida dos fabricantes para se instalarem aqui. Além de Alstom e Gamesa, a GE também demonstrou interesse e assinou protocolo de intenção para implantar uma fábrica em Ilhéus, aproveitando a sinergia com a ferrovia Oeste-Leste. Em breve iremos à Espanha, vamos negociar a vinda de uma quarta empresa”, afirma Correia, sem, no entanto, revelar o nome do fabricante.
Para o presidente da Desenvix, a vinda dos fabricantes de aerogeradores dará uma vantagem à Bahia na hora de trazer mais empreendimentos de energia eólica. “A instalação das montadoras vai fazer com que o custo de construção e manutenção seja menor, reduzindo também o preço ofertado pela energia. A tendência é o estado ganhar cada vez mais leilões por conta disso”, esclarece Antunes. O secretário da SICM concorda com o raciocínio. “Esses investimentos nos tornarão o lugar mais vantajoso para se investir nesse tipo de energia no Brasil, pois não há nada melhor para um parque eólico do que ter um fabricante de equipamentos por perto e vice-versa”, explica.
O representante de energia eólica da SICM esclarece como ocorrem os incentivos, tanto para os parques quanto para os fabricantes de peças. As empresas responsáveis pelos parques eólicos recebem isenção de ICMS pelo Conselho Fazendário Nacional (Confaz) e assinam um protocolo de intenções, assumindo o compromisso de implantar aqui os seus empreendimentos.
“Em contrapartida, o estado oferece uma série de incentivos, desde fiscais até obras de infraestrutura. Já as indústrias de aerogeradores recebem um benefício um pouco maior, por se tratarem de projetos que concentram grande parte dos empregos da cadeia de energia eólica”, esclarece Valverde.

Impactos sociais
O impacto do boom de energia eólica na Bahia vai além da instalação de novas empresas, da energia limpa e do aumento da oferta de energia. A população é diretamente afetada, sobretudo no entorno dos locais onde há investimentos. “Só o empreendimento da Renova, por exemplo, está gerando 2 mil empregos durante a construção. As obras da Alstom geram 150 vagas e as da Gamesa outras 50. Durante a realização de todos os projetos serão gerados mais de 3 mil postos de trabalho. Na fase de operação o número será menor, mas ainda significativo, variando entre 300 e 500 empregos”, afirma Valverde.
Segundo Correia, os empreendimentos representam benefícios sociais que vão além da geração de empregos. “Um exemplo de benefício direto para a comunidade é que na maioria dos projetos os terrenos são arrendados. O aluguel gera uma renda extra, que é muito significativa para as famílias do semiárido. Essa troca se encaixa como uma luva para a região”, argumenta o secretário.

Vantagens da fonte eólica
“Não há impactos ecológicos negativos na geração de energia eólica. Ela é tida no mundo inteiro como limpa, de baixo impacto ambiental, não necessitando de inundações, de nada que afronte a natureza”, explica o presidente da Desenvix. Antunes também ressalta o aspecto financeiro como um ponto forte dessa forma de geração energética, se comparada a outras fontes alternativas. “Enquanto o custo da energia eólica por MW/h é de R$ 140, as pequenas centrais de gás custam R$ 155 e as usinas de biomassa, R$ 160. Também temos um tempo de implantação menor do que o de outras fontes, como a hidrelétrica. Por fim, os custos de manutenção são baixos, já que nos primeiros anos não é necessário substituir nenhum componente. A partir do quinto ano são necessários investimentos de até R$ 4 milhões para manutenção. Quanto ao equipamento, tem duração estimada de 20 anos”, conclui.
Segundo Valverde, a energia eólica pode ser considerada vantajosa principalmente para complementar o regime operacional de energia existente no Brasil, cuja matriz, predominantemente hidrelétrica, é caracterizada pela forte influência do regime de chuvas. “Nós temos o chamado período úmido, onde a energia hidráulica está muito disponível. No período seco, entretanto, a baixa pluviosidade gera o esvaziamento dos reservatórios das usinas, o que ocorre coincidentemente no período de grande consumo de eletricidade. A época de maior vento coincide justamente com o período seco, fazendo com que a energia eólica compense a hidráulica e evite a redução do nível dos reservatórios de água”, explica o representante da SICM.

Determinando o potencial eólico
Ao contrário de outras formas de geração de energia, como usinas termelétricas, que podem ser construídas em qualquer lugar, os empreendimentos eólicos e hidrelétricos dependem diretamente da proximidade de recursos naturais. O potencial para geração de energia eólica é determinado por uma série de fatores relativos à intensidade e constância dos ventos. “Eles devem ter velocidade de pelo menos 7 a 7,5 metros por segundo e, preferencialmente, soprar em uma mesma direção a maior parte do tempo. É importante também que a região tenha baixa variação de relevo, para evitar ventos turbulentos. Por fim, é fundamental que sejam uniformes durante o ano, para garantir o abastecimento seguro. É necessário que vente pelo menos entre 40% e 60% do tempo”, esclarece Valverde.
O fato de a Bahia abrigar regiões que atendem a muitas das características necessárias justifica o sucesso de trazer parques eólicos para cá. “Existe aqui uma grande faixa, que vai do Sudoeste até o Vale do Rio São Francisco, onde foi constatado grande potencial, atendendo a todos os pré-requisitos”, conta.
Para descobrir esse potencial é preciso realizar uma série de estudos e medições. Na Bahia, o referencial de consulta é o Atlas do Potencial Eólico do Estado, publicado pela Coelba em 2001. “A partir desses dados, as empresas interessadas em empreender aqui vão a campo conferir detalhes sobre as regiões que apresentaram bom desempenho na pesquisa. A análise é feita com a instalação de torres de medição, que devem confirmar as características favoráveis dos ventos. Uma vez comprovado o potencial, os empreendedores partem para a disputa dos leilões de energia”, explica Valverde.

Energia Nuclear: o extremo oposto

A Bahia vive um momento de dualidade em sua política energética. Por um lado, expressivos empreendimentos em energia eólica, gerando riqueza e empregos com energia limpa, renovável e de baixo risco e impacto ambiental. Por outro, encara o polêmico interesse do governo estadual em abrigar uma usina nuclear em seu território. O fato ocorre em meio a uma crise mundial de credibilidade na fonte nuclear, devido à catástrofe na Usina de Fukushima, no Japão. Os vazamentos de radiação ainda não foram totalmente controlados no país asiático e motivaram diversas nações a reverem seus procedimentos de segurança, além de protestos pelo fechamento das plantas existentes.
Para o coordenador executivo do Grupo Ambientalista da Bahia (Gambá), Renato Cunha, a decisão é um equívoco. “O Brasil tem outras possibilidades mais seguras, não precisamos recorrer a isso. A nossa luta não é contra a instalação de uma usina nuclear apenas na Bahia, mas no Brasil. A energia nuclear é muito arriscada e pode causar danos irremediáveis, como se vê agora no Japão”, adverte.
Os perigos desta fonte de energia vão além de possíveis catástrofes naturais. “Apesar de não convivermos com grandes terremotos nem tsunamis, algum desastre pode acontecer. Mesmo a improvável queda de um avião ou uma falha operacional pode desencadear uma tragédia. Outro problema significativo é lidar com os resíduos radioativos da usina, que também são altamente perigosos”, argumenta.

Benefícios
Os defensores da implantação da usina na Bahia argumentam que a planta demandará investimentos de 5 a 10 bilhões de reais, irá gerar 6 mil empregos e iniciará um ciclo de criação de riqueza em efeito cascata. O Governo do Estado ganhará, só em impostos, R$ 1 bilhão por ano.■

            
            

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